A CONDIÇÃO DA MULHER NA SOCIEDADE EUROPÉIA DO SÉC. XX
Os escritos de uma mulher são sempre são sempre femininos;
não podem deixar de sê-los; quanto melhor, mais feminino; a
única dificuldade é definir o que entendemos por femininoI[1].
1. Introdução
A mulher é a ficção que ela escreve? Ou a ficção escrita sobre ela? O que, de fato, pode ser considerada literatura feminina? Em que condições escreviam as mulheres européias na emergência do nosso século? Antes mesmo de contextualizar historicamente e estabelecer um estudo crítico sobre qualquer obra ficcional, vale a pena refletir, ainda que brevemente, sobre a mística feminina, buscando conceitualizá-la.
Ao descrever, na epígrafe supracitada, o papel que a mulher desempenhava na sociedade de sua época, V. Woolf apresenta-nos situações extremamente constrangedoras para uma mulher[2]. Isto fica ainda mais evidente quando a mencionada autora imagina o que teria acontecido se Shakespeare tivesse tido uma irmã chamada Judith, para concluir sabiamente o possível destino desta mulher: “qualquer mulher nascida com um grande talento no século XVI teria certamente enlouquecido, ter-se-ia matado com um tiro, ou terminado seus dias em algum chalé isolado, fora da cidade, meio bruxa, meio feiticeira, temida e ridicularizada”[3]. Não são raros os casos em que isso acontece. A própria V. Woolf, tal qual Safo, Rosa Luxemburgo e tantas outras, teria cometido suicídio, afogando-se à maneira da Ophelia shakespereana. Suicídio lento e doloroso é o isolamento da brasileira Hilda Hilst em sua chácara no interior paulista.
Estudando a obra de G. Eliot, Jane Austen, as irmãs Brontë, etc., a autora de Orlando conclui que a mulher precisa de condições mínimas para produzir sua escritura: um teto todo seu, meia hora realmente sua, acesso a texto de outros autores, renda própria, etc. Condições estas que não possuía Jane Austen, por exemplo, que só confiava nas portas que rangiam, avisando a chegada de um intruso, curioso em ler as anotações de seu diário.
2. O equívoco feminino
De geração em geração, os traços diferenciais entre homens e mulheres não se atenuaram. Ao contrário, parece-me que cada sexo está cada vez mais comprometido com a sua realidade. A mulher ainda é, em algumas culturas, mera mercadoria de troca entre homens (casamento). Na sociedade ocidental, entretanto, a dicotomia sexual é uma vivência inconfundível do fazer, do prazer, do saber, enfim, do ser.
A construção da identidade feminina passa, necessariamente, pelo recalque do universo masculino, pela diferenciação sexual. No nosso século assistimos à problematização em profundidade do modelo, até então inconteste, ainda que muitas vezes implícita, da superioridade viril. Não se trata aqui de fazer propaganda do movimento político-social das mulheres, o feminismo. No entanto, o fato é que o papel feminino vêm mudando gradativamente, sem que o papel masculino fosse fundamentalmente tocado.
A tentativa desesperada de igualdade entre os sexos transformou-se em apenas um esforço de androginia, com a mulher assumindo uma dupla jornada. Caricatura do homem, a mulher que trabalha fora de casa, para ser respeitada no início do nosso século, teve que pensar, agir e trabalhar mais e melhor do que os homens, sem, entretanto, ganhar mais por isso. Sabemos que, em média, a mulher recebe 40% menos que o homem, para executar as mesmas atividades.
O grande equívoco das feministas foi a desvalorização do universo feminino, aceitando como definição de um mundo mais igualitário aquele em que precisariam apenas adotar os valores masculinos. A vida privada ( o lar ) foi negligenciado em detrimento da vida pública (o trabalho), durante os primeiro anos do feminismo. Assim, o mal-estar da dona de casa por se sentir explorada pelos homens foi substituído por um mal ainda pior: o sentimento de inadaptação.
Não conseguindo masculinizar-se no seu ambiente de trabalho, a mulher também não conseguiu feminimizar o mundo. E, conseqüência terrível, perdeu o contato com o seu lado mais feminino, o doméstico. Assim, conclui-se que a mulher não conseguiu atingir os objetivos explicitados no manifesto feminista: “a valorização do sensual, a intimidade como mistério, a intuição como conhecimento, o percebido tão forte quanto o provado, o sensível contra o racional, a estética como ética do futuro”[4].
Ao suscitar o questionamento sobre as já mencionadas leis, que lhes são impostas pela hierarquia masculina, as mulheres penetraram no espaço público através do seu trabalho; produziram um contra-discurso, uma contra-ideologia, fazendo contrastar o seu ponto de vista com o masculino na cena cultural de nosso século. O movimento libertatório feminino expli- citou a incerteza, a pluralidade e a alternativa no universo social predominantemente viril e caracterizado pela verdade absoluta, pela unanimidade e pelo conformismo.
3. A fala feminina
No fim da década de 80, a defesa da igualdade entre os sexos passa pela afirmação da diferença. Em confronto consigo mesmo, o universo feminino é agora questionado radicalmente. Em busca de uma redefinição, o feminino já não mimetiza de forma caricatural o viril, nem se julga igual a ele. Aprendeu a conviver sem conflito com o autenticamente feminino, sem propagar o no man’s land, sem refletir a imagem masculina.
Somente nesta última década, os avanços sócio-culturais permitiram à mulher uma relação profícua com o saber, a partir do abandono daquela fala titubeante e reticente, que marcaram a expressão feminina anteriormente. Se não, vejamos: no espaço privado, isto é, em seu lar, a mulher sempre se sentiu confortável para expressar suas idéias, relativas unicamente a este universo doméstico. Para ela, o homem reservou este ambiente, em que era vista como a rainha do lar. No espaçopúblico, entretanto, ele reinava.
Neste ambiente, a mulher sentia-se quase estrangeira. Sua fala demonstrava que não conhecia nem cultivava o dom da oratória, tido consensualmente como masculino. A mulher não dominava os códigos culturais, daí o medo de falar em público, perfeitamente compreensível depois de séculos de um respeitoso quase silêncio, ou da completa abdicação do ato de se expressar publicamente, com a própria voz, palavras e idéias. Faltava à mulher deter o saber instrumental, ou seja, a arte de exercer uma linguagem mais conceitual, identificada ao universo masculino.
A fala em público parece-me representar para mulher uma intromissão agressiva no universo masculino. Melhor dizendo, uma masculinização de seu comportamento social. Tida como adorno para os eventos sociais, passa agora a agente, repetindo o registro viril, aceito como o mais apropriado ao espaço público. A mudança de registro lingüístico é perceptível na fala feminina em uma comunicação formal, por exemplo. Por outro lado, muitos estudiosos vêm percebendo uma rasura deste registro masculino na fala da mulher. Desde os anos 80, pesquisadores vem discutindo a discriminação lingüística sofrida pela mulher. Isto é, a sócio-lingüística tem observado que há diferenças na maneira como o homem e a mulher se expressam. E mais: “Alguns item lexicais significam uma coisa quando aplicados aos homens e outra quando aplicados às mulheres, e essa diferença refere-se aos diferentes papéis desempenhados pelos sexos na sociedade”[5].
Segundo Robin Lakoff, a mulher emprega mais adjetivos ao falar. Também é mais polida, mais preocupada com a hipercorreção gramatical, o que talvez explique as freqüentes expressões modais que exprimem conteúdos triviais, frívolos. A atitude e os gestos denotam hesitação, pouca segurança, desconforto. Por tudo isso, ainda segundo Lakoff, a fala feminina se desqualifica diante do discurso masculino, mais imperioso e firme. A julgar por estes estudos sócio-lingüísticos, a liberdade feminina passa pelo emprego oral de formas mais afirmativas e menos hesitantes, capazes de consolidar o papel da mulher no espaço público[6].
Assim, a mulher vê-se diante de um impasse: utilizar o discurso masculino é por em risco sua feminilidade. Não utilizá-lo é expor-se ao ridículo, ao falar em público. A maioria das mulheres optam pela ambigüidade na sua atitude pública, isto é, adotam apenas parcialmente o falar masculino, mantendo um pouco daqueles traços da cultura feminina.
É esta ambivalência que hoje norteia o movimento feminista. Repensando o conceito de igualdade entre os sexos, a partir da valorização das dicotomias, a imagem feminina não se assemelha a dos homens, mas também não se difere completamente de si mesma. Agora, o papel social da mulher é definido considerando-se sua vida privada e a pública, a dona de casa e a trabalhadora, a que sabe e a que ainda tem muito o que aprender.
Vale ressaltar que as universidades estão repletas de mulheres que buscam o saber em várias áreas e não apenas naquelas profissões tradicionalmente aceitas como feminina: magistério, enfermagem, etc. Estas universitárias não absorvem meramente os conhecimentos, mas os produzem. Percebe-se facilmente um considerável aumento na produção verdadeiramente científica assinada por mulheres, no mundo todo. Agora o saber feminino se estrutura na própria experiência e não mais naquela assimilada do discurso masculino.
Se é verdade que ao falar em público, a mulher assume quase sempre uma atitude hesitante, é também neste espaço que ela busca o acesso a horizontes anteriormente viris. Busca novas experiências e saberes, busca poder de decisão e liderança. Não é por acaso que os primeiros traços da libertação feminina ocorra de forma mais patente apenas na literatura do começo do nosso século, refugiados no imaginário, na fantasia insubmissa, procurando a descrição precisa do papel feminino no mundo e sua conseqüente reinvenção.
4. A escrita feminina
A literatura não é para as mulheres uma simples transgressão das leis que lhes proibiam ao acesso à criação artística. É, muito mais do que isso, um território quase sempre interdito, clandestino. Saída secreta da clausura da linguagem e de um pensamento masculino que as pensava e descrevia in absentia. Apenas desabafo? Não, a literatura feminina é mais do que isso. É um registro escrito do inconformismo da mulher às leis da sociedade patriarcal. É, como um palimpsesto, a reescritura do produção literária masculina, mas sob o ponto de vista feminino.
Afastando-se da identidade pré-fabricada no espelho do homem é que melhor a mulher se vê. Para além do mero mimetismo masculino, a mulher busca a diferença como identidade. Por isso, não se deve definir o feminino, a partir do modelo masculino. É, antes, o seu avesso:
Feminina
– Ó mãe, me explica, me ensina,
Me diz: o que é feminina?
– Não é no cabelo, ou no dengo ou no olhar
É ser menina por todo lugar.
– Ó mãe, então me ilumina
Me diz: como é que termina
Termina na hora de recomeçar
Dobra um esquina no mesmo lugar...”[7]
Não mais a igualdade entre os sexos. Através da desconstrução daquele supracitado modelo masculino na prática de sua escritura, a autora vai percebendo que é necessário buscar verdadeiramente o primado da diferença, sem hierarquia e sem ambigüidade. Consciente agora de sua situação de alteridade, a mulher não se permite que a definam como perigosa, instável, “metade ruim da sociedade” e antagônica. No imaginário masculino, ela é, ainda e antes de mais nada, a outra, muito mais do que a parceira. Este estranhamento se exprime nos sistemas simbólicos e de representação da realidade, através das manifestações artísticas, co mo a literatura, por exemplo. Experiência histórica e social, de um psiquismo que se fez cultura. Entre o público e o privado, a mulher que escreve estabelece seu mundo imaginário, procurando dizer de si mesma aos outros e propondo maneiras inovadoras de estar e de fazer.
Ao reconhecer-se diferente do homem, a mulher não deixou simplesmente de lutar pelos seus direitos. A valorização das diferenças é, antes de mais nada, a constatação de que o universo feminino existe, não pode mais ser escamoteado. E a literatura produzida pela mulher baseia-se neste seu universo, sendo mesmo resultante de um corpo que se fez
A criação artística e, sobretudo, a literária, como élan de comunicação de sua vida privada com o público, através da palavra escrita, abre para a mulher uma fenda na muralha, revolve o estagnado cenário cultural masculino, apresentando-a a este mesmo cenário. No século XIX, a óbvia imitação do estilo masculino só era quebrado pelo amargor inconfundivelmente feminino. Era a constatação de que muito ainda precisava ser feito para que aquela literatura produzida por mulheres pudesse ser considerada autenticamente feminina.
Na passagem para o nosso século, graças talvez ao modernismo, a irregularidade do texto feminino já não parece tão grotesca. Ao afastar-se do estilo masculino, assumindo sua inexperiência e imperfeição, a mulher encontra o seu verdadeiro jeito de escrever. O universo masculino é olvidado, para que se instaure o feminino.
É parte do projeto inicial de criação da literatura autenticamente feminina fazer a travessia pelo território masculino. Por isso, a voz é feminina, mas muitas vezes a personagem principal ainda é masculina. É o caso de Mémorias de Adriano, de M. Yourcenar, por exemplo.
Pouco a pouco, a escritura se torna autônoma: voz feminina, personagem feminina. Este é o caso de M. Duras e Florbela Espanca, por exemplo, que dão voz ao que antes era silenciado. Memória e experiência pessoal. Sentimento e escolha rigorosa da palavra, para que seja eliminado o supérfluo, os exageros lacrimejantes, as lamentações. Agora a escritora é sujeito coletivo, produzindo uma escritura que exprime a identidade feminina, que deixa de ser o outro do masculino e passa a ser o ego.
No Prólogo da edição brasileira da obra Woman’s Mysteries (Os mistérios da mulher), de M. Esther Harding, os escritores Jette e Léon Bonaventure comentam:
Sentimos logo que o presente livro foi escrito por uma mulher: ele é marcado pela maneira peculiar de a mulher sentir pensar, pressentir e tecer relacionametos com aquilo que vive. Ela nos fala do fundo do seu próprio mistério de ser mulher[8].
O texto escrito “é uma das primeiras conquistas femininas”[9], na direção de sua autonomia política. Parece-me que desde os primeiros poemas de Safo, encontrados e publicados em fragmentos, passando pelas correspondências (Cartas portuguesas, de Mariana Alcoforado, por exemplo) até os romances, contos, ensaios, artigos, enfim, toda a produção literária feminina se caracteriza por este supracitado “mistério de ser mulher”. Durante séculos ( e ainda hoje ! ), a mulher é uma desconhecida para si mesma e uma estrangeira na sociedade de valores e leis masculinas. Mas, lembrando Mme de Staël,
Sem as mulheres, a sociedade não pode ser nem agradável nem picante; e as mulheres carentes de espírito ou dessa graça de conversação, que supõe a mais distinta educação, estragam a sociedade, em vez de embelezá-la[10]
As mulheres que escrevem atualmente escrevem também por todas aquelas que nos séculos anteriores e mesmo hoje em dia, em culturas mais restritivas, são silenciadas. A meu ver, a escrita feminina é justamente este livre expressar-se do universo feminino, paralelo ao masculino, sem imitá-lo, mas também sem desconhecê-lo. A realidade da produção literária do nosso século opõe os contrários, sem que a mulher precise adotar o estilo do elemento masculino dominador, mantendo a sua natureza feminina.
[1] V. Woolf, A room of one’s own, New York, H. Brace, 1929, p. 23.
[2] “As damas só são admitidas na biblioteca acompanhadas por Fellow da faculdade ou providas de uma carta de apresentação”.Idem, p. 13.
[3] Ibidem, p. 65.
[4] “Féminiser le monde”, Document IDAC nº 10, Genebra, Institut d’Action Cuturelle, 1975.
[5] Robin Lakoff, Language and Woman’s place. N. York, Haper and Row, 1975, p. 3.
[6] “Uma mulher em público está sempre deslocada”. Pitágoras, citado por M. Perrot, Mulheres públicas. Trad. Roberto L. Ferreira. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 8. (Prisma).
[7] (Joyce. Gravação Polygram – Quarteto em Cy)
[8] Mary Esther Harding, Os mistérios da mulher antiga e contemporânea: uma interpretação psicológica do princípio feminino tal como é retratado nos mitos, na história e nos sonhos. Trad. Maria E. S. Barbosa & Vilma H. Tanaka. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985, p. 12. (Col. Eros e Psique).
[9] “Uma mulher, na intimidade do seu quarto, pode escrever um livro ou um artigo de jornal que a introduzirão no espaço público. É por isso que a escritura, suscetível de uma prática domiciliar ( assim como a pintura), é uma das primeiras conquistas femininas, e também uma das que provocaram mais forte resistência”. M. Perrot, op. cit., p. 10.
[10] Idem, p. 60.